Vaticano: seja católico ou não - parte 2
Não sei porque, mas a sensação que tenho é a de que eu entrei sozinho naquela imensa igreja. Não me lembro dos turistas, tudo que me lembro é da minha experiência pessoal com aquele prédio cheio de história. Tente colocar na sua cabeça toda aquela imensidão. Logo depois de entrar, você vai ser automaticamente levado a olhar para o seu lado direito. Se eu tivesse qualquer tendência em me tornar Católico, acho que aquele seria o momento perfeito para fazê-lo: o momento em que vislumbrei La Pietá. Uma capela simples com essa escultura que te magnetiza: uma mãe com o filho adulto deitado em seu colo. Eu andei por toda a igreja, mas de alguma forma era sempre levado a voltar e olhar aquela cena de novo. Sem dúvida, uma das coisas mais bonitas que já ví. Como é que Michelangelo, aos 24 anos de idade, no ano de 1499, conseguiu tal proeza em mostrar tantos sentimentos e emoções naquela escultura? Esse foi mais um momento em que não me lembro de nenhum turista ao meu lado. Falo isso porque eu tenho visto algumas fotos do Vaticano e está sempre cheio de gente andando para lá e para cá. Creio que eu tenho essa capacidade de me isolar com a experiência do momento nessas viagens.
Ao andar pela Basílica de São Pedro (que não é a Catedral de Roma) tenha consciência de que você está entrando na maior igreja Católica do mundo. Olhe em todas as direções, inclusive o chão de mármore onde você vai encontrar o nome e símbolo das dioceses do mundo inteiro.
Não deixe de visitar a cripta onde você pode ver o túmolo de papas recentes e do passado. Quer algumas informações da grandesa desse monumento? São 31 altares, 27 capelas dentro da basílica, 390 estátuas, 135 mosaicos e 15 mil metros quadrados de mármore.
Depois de visitar a Basílica onde bispos são sagrados, novos santos são proclamados e onde por séculos e séculos as coloridas e bem coreografadas liturgias católicas acontecem, visite a maravilhosa Capela Sistina. Um pequeno livro comemorando a restauração da Capela que comprei enquanto no Vaticano tem o título que resume as pinturas que você vai ver em seu interior: Capela Sistina - Santuário da Teologia do Corpo Humano. É claro que está diante de obras como A Criação de Adão ou do Juízo Final torna-se momentos únicos e inesquecíveis, porém, minha maior fascinação com a Capela Sistina foi a do meu senso histórico de que naquele exato lugar são realizados os conclaves onde são escolhidos os novos papas da igreja. É dalí que se origina a tão famosa fumaça branca que anuncia a eleição de mais um sumo pontífice. É alí também onde todos os anos por ocasião da Páscoa acontece uma dessas coisas que só o Vaticano mesmo consegue criar com seus segredos, fofocas e intrigas.
Se você estiver por Roma na quarta ou sexta-feira da semana santa, tente participar da missa realizada na Capela Sistina. Nessa missa você vai ouvir o Miserere Mei, Deus composto por Gregorio Allegri em 1630. Por algum motivo ligado a supertição excessiva e secretiva do Vaticano, essa composição foi proíbida pelo Papa de ser copiada ou executada fora da Capela ou daquela missa específica sob pena de excomunhão automática. Uma das coisas que mais chama a atenção nessa composição específica é o fato de, em meio ao canto coral, uma simples voz se destaca cantando a mais pura nota dó nas maiores alturas da nota, toda a música enche a Capela e você é elevado até o teto cada vez que o menino no coro (ou o castrato nos tempos antigos) atinge aquela difícil nota. A fascinação com a história desse Miserere não termina na sua técnica musical. Por causa da proibição decretada pelo Papa, a única maneira de se ouvir a música era participando da missa em um dos dias da Semana Santa. A tradição diz que lá pelo ano de 1770 um menino de 14 anos participou da missa na quarta-feira santa e ouviu aquela música. Mais tarde naquele dia, o menino sentou-se e escreveu toda a música de memória baseado no que havia ouvido durante a missa. O menino retornou na sexta-feira para checar se o que havia memorizado estava certo e talvez fazer algumas correções. O nome desse menino era Mozart. Baseado na transcrição de Mozart, a música foi publicada em Londres no ano de 1771. Mozart não foi excomungado, mas sim admirado pelo Papa. Por falar em Miserere, saiba que a língua oficial do Vaticano é o velho e bonito latin. Isso significa que se você for tirar dinheiro no caixa eletrônico vai ser saudado pela máquina com a seguinte inscrição na tela:
Inserito scidulam quaeso ut faciundam cognoscas rationem
Pois bem, não deixe de estudar seu latin e, quem sabe, você é até
convidado para um bate-papo com o Papa.
By Alverson de Souza, atualmente mora na cidade de Boston (estado de Massachusetts) já por 10 anos.
Photo by Yakinodi
Posted by Josi Guimarães at 03.02PM to Religion | Link permanente | Comentários (1) | TrackBack (0)

